Qual livro eu deixarei inacabado?

Qual livro terá sua leitura interrompida, de forma abrupta, e não poderei finalizar? Qual história irá tornar-se nebulosa, quando a partida se tornar inadiável? Terei a sorte de ler até o último relance de consciência? Estarei medicado, confuso, perdido? Terei a visão em plenas condições ou terei de fazer como Borges e esperar que algum iluminado, como Manguel, se disponha a ler para mim?

A data e a forma não sei, mas sei que estarei acompanhado de livros. Pode ser de forma abrupta. Hoje! Talvez, hoje, seja um bom dia. Sol lá fora, crianças brincando, pássaros cantando. A paisagem importa porque a paisagem é o que será lembrada, dias e mais dias após eu partir. Uma manhã qualquer, no entanto, até mesmo a lembrança dos belos dias em que vivi irá se dissipar. Em pouco tempo nem mesmo a lembrança de alguém manterá presente o que fiz por aqui. Então olho para o livro que estou lendo e entendo que cada livro finalizado não leva a lugar algum.

A partida é sempre uma andança sem destino. Achamos que sabemos aonde estamos indo, mas, mesmo ao retornar para casa, após uma aventura de se lançar pelas ruas barulhentas e cheias de possibilidades de antecipar o voo final em direção ao nada, não estamos seguros. Estamos todos perdidos e, ao mesmo tempo, ocupados demais em fazer da nossa existência algo que os outros definiram que seria o papel que deveríamos cumprir.

Contemplo a folha que balança, suave, ao sopro do vento. Ao seu lado passam muitos transeuntes apressados. Não a viram, mas ela continua a se insinuar em um lépido e seguro movimento. Não se desprende do galho, mas, ao passar da estação, também a folha irá partir, cair no chão, seca e espezinhada por uma maioria barulhenta que nem mesmo percebeu sua presença enquanto esteve por aqui.

Estamos apressados demais para perceber a folha que balança, o vento que sopra, o sol que ilumina, a chuva que cai. Estamos ocupados demais para entender que alguns livros nunca serão fechados pelas mãos que o abriram na intenção de lê-lo. Alegrias de quem amamos não serão compartilhadas, pessoas que gostaríamos de ter carregado nos braços, enquanto crianças, não poderão ser amadas e guardadas na memória do último suspiro.

Procuramos respostas que adiem a partida, que expliquem o significado do nada, que indiquem uma possibilidade de que o fim seja um novo começo, mas, aquele livro, ainda aberto, em cima da mesa, marcado na página 111, foram as palavras finais que deixei. Pode desmarcar esta página. Pode deixar o livro pronto para um novo começo. Ele permanecerá por mais tempo, como gostaria eu de permanecer, se um dia pudesse ser lido.

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