Os medos mudaram?

Você seria capaz de afirmar que, em mais de mil anos, os medos mudaram? Em ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos, de Georges Duby, publicado pela Editora Unesp, somos provocados a pensar nos nossos medos, partindo de uma perspectiva histórica.

O livro é da década de 1990 e resulta de uma entrevista concedida pelo referido historiador francês aos jornalistas Michel Faure e François Claus, mas traz reflexões pertinentes ainda nesta segunda década do século XXI.

Dividido em cinco capítulos, cada qual referente a um tipo de medo (da miséria, do outro, das epidemias, da violência e do além), o livro tem o mérito de estabelecer diversas relações entre o período da baixa idade média e os anos que precederam a virada do século.

Saber que as pessoas que viveram há mais de dez séculos guardam semelhanças com a nossa forma de tratar os medos contemporâneos, revela que os preconceitos influenciam mais o desenvolvimento do medo, no ser humano, do que possamos imaginar.

A xenofobia, tão presente no debate público, hoje, quando se fala na política anti-imigração dos EUA, tem raízes profundas e deve ser pensada com base em experiências anteriores, como a violência que acometeu a comunidade judaica e os leprosos, por exemplo, por ocasião da peste bulbônica, no século XIV.

Ambos foram tomados como bode expiatórios diante de uma doença que se alastrava, rapidamente, sem que houvesse o desenvolvimento científico necessário para identificar as verdadeiras causas da transmissão. Sem explicação plausível, o medo do “outro” levou a estigmas e à violência, sendo estes dois grupos considerados “culpados” pelo “mal” que se expressava por meio da doença e da morte.

Conforme o autor exemplifica na obra, não foi nada muito diferente do que ocorreu com a epidemia de HIV/AIDS, nos anos 1990, quando a comunidade gay foi segregada e sofreu reações irracionais da opinião pública, justamente por um mecanismo de reativação desse “medo ancestral”, onde a racionalidade científica perde espaço para a irracionalidade da “punição divina”.

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