Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Fechando a sequência de resenhas que compõem a chamada “tríade distópica“, falamos um pouco, hoje, sobre o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. O livro, publicado em 1953, foi escrito em um contexto em que os Estados Unidos se via em flagrante violação dos direitos individuais, com a ascensão do movimento que ficou conhecido como “macarthismo”. Neste período, foi lançada uma forte campanha de perseguição aos comunistas – ou aos que assim eram taxados -, tentando justificar todo tipo de abuso e intolerância política, o que certamente influenciou na perspectiva de construção da sociedade distópica apresentada nesta obra.

A tríade distópica

Podemos considerar que, em Admirável Mundo Novo, que é de 1932, a crítica de Aldous Huxley ao totalitarismo se concentrava, fortemente, nos regimes nazista e fascista. Já, em 1984, lançado em 1949, Orwell rechaça os dois extremos de poder, que emergiram durante a Guerra Fria, descritos por ele a partir do entendimento de que havia ocorrido uma deturpação do socialismo, pelo Stalinismo, e o seu “contraponto”, nos Estados Unidos, era uma falsificação da democracia, concentrada em uma política de promoção da guerra, que procurava crescer, ao redor do mundo, lucrando em cima de economias mais fracas.

Mas, em Fahrenheit 451, que, do ponto de vista cronológico, pôde beber nessas duas fontes, qual seria a principal referência crítica? Como abordado de início, ao imaginar uma sociedade futura, nada agradável de se viver, Bradbury vislumbrou um período próximo aos dias de hoje, onde a vitória do modelo norte-americano, concentrado em um modo de produção capitalista, passaria a impor a sociedade de consumo e o senso comum como as bases das relações humanas.

Crítica ao capitalismo

Em um mundo assim, obviamente, os livros teriam de ser destruídos, aniquilados, levados às brasas, para nunca mais terem a possibilidade de inspirarem pensamentos contrários a um modelo de vida em que as pessoas já não pensam por conta própria; apenas seguem suas vidas, tornando-se escravas do entretenimento. Por isso a referência à forte dependência da tecnologia (as teletelas de Orwell) e ao uso de medicações (a Soma de Huxley), que, combinados, anestesiariam a eterna angústia de fazer algo mais, na vida, do que apenas existir.

Em Fahrenheit 451, encontramos muito dos tempos atuais. A automatização da vida, o desprezo pelas ciências humanas e pela arte, o incentivo apenas ao conhecimento técnico (leitura apenas de manuais) e a reverência às atividades práticas, como apertar parafusos. Nesse mundo imaginado por Bradbury, manter obras literárias e filosóficas, em casa, constituía crime! Trata-se, portanto, de um mundo utilitário, onde as experiências de vida são protocolares e o cotidiano asfixiante.

Como os livros haviam sido criminalizados e precisavam ser queimados, o chefe dos bombeiros, Beatty, desempenha o papel de inquisidor, representando o líder de uma espécie de “ditadura da maioria”, que procura se reivindicar enquanto “sociedade democrática”, mas que, na verdade, não passa de uma ditadura do consumo, onde o Corpo de Bombeiros assume papel central, substituindo os governos tirânicos de 1984 e Admirável Mundo Novo. Os bombeiros não eram mais responsáveis por apagar o fogo, mas, ao contrário, ganharam a incumbência de atear fogo nos “perigosos” e “subversivos” livros, destruindo todo o pensamento crítico. E isso podia ser feito sem qualquer risco à vida das pessoas, já que as casas eram à prova de combustão.

Para entrar nesse mundo, acompanhamos a trajetória de um desses bombeiros, Montag, que, ao conhecer uma jovem vizinha, de uma família considerada suspeita de ter o hábito da leitura, passa a ser questionado sobre “o porquê de queimar livros”. Clarice acaba adentrando a vida do homem como se representasse a filha que ele e sua esposa, Mildred, nunca tiveram, já que esta última oscilava entre o desejo de consumir cada vez mais e as crises em que tentava pôr fim à própria vida.

Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário

Gostou da resenha? Então te inscreve em nosso Canal no YouTube e nos acompanha no Instagram!

Para saber um pouco mais dessa história, acompanhe a resenha em nosso canal do YouTube:

Se inscreva no canal, curta e compartilhe para que possamos chegar a mais pessoas e manter esse projeto!

Deixe um comentário