Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário
A primeira questão – e fundamental – sobre esse livro, está na compreensão do contexto em que foi escrito e da posição política do autor, no momento histórico em que viveu. Orwell tinha lado. Era um sujeito de esquerda, indignado com a adesão da esquerda britânica ao Stalinismo – daí a referência do livro ao “Socialismo Inglês”. Ele criticava tanto os que estavam ao seu lado, na trincheira, quanto os que supostamente “estariam ao seu lado” e os que, declaradamente, estavam em um espectro oposto. Era, sobretudo, um pensador livre, da “esquerda dissidente”, para ficar em uma definição de Thomas Pynchon. Um autor que não media palavras para condenar toda forma de totalitarismo, seja lá de qual espectro ideológico derivasse!
Ele, enquanto socialista, não aceitava os rumos que a esquerda russa estava tomando, naquela época, como comprova outro livro seu de sucesso – A Revolução dos Bichos -, no qual faz duras críticas ao Stalinismo, que, em sua definição, seria uma deturpação do socialismo, tal qual aprendera a adotar como filosofia de vida e prática de militância política.
1984: uma crítica a toda forma de totalitarismo
Em 1984, ele vai além da crítica pontual ao Stalinismo. Considera o contexto da Guerra Fria e não poupa críticas, também, ao outro extremo de poder que emergia neste dado momento histórico: o governo norte-americano! Por isso as investidas literárias contra a indústria bélica (que, ainda hoje, compõe a base da economia dos Estados Unidos), além do repúdio a práticas de espionagem e construção de armas de destruição em massa; lembrando que o primeiro teste com arma nuclear, em solo americano, se deu ainda no ano de 1945, quatro anos antes do livro 1984 ser publicado. É importante reforçar, portanto, que Orweel vivenciou, na prática, a disputa ideológica travada pelas duas grandes potências de então: URSS e EUA.
Nesse mesmo sentido, basta ler a obra com atenção para perceber que se trata de uma crítica à esquerda Stalinista, feita por meio de uma interpretação também de esquerda, que, a depender dos argumentos, pode ser considerada de corte libertário (ou anarquista), mas jamais liberal, em seu sentido clássico. Diferente do que poderia sugerir uma leitura de cunho meramente ancorada nos pressupostos do liberalismo econômico, o foco, em todo o conteúdo, jamais prescinde de uma questão central: a busca pela liberdade não pode abrir mão da igualdade e da justiça social.
Repensando a obra sem descontextualizar sua crítica fundamental
Além disso, destaco que, ao ler o livro, é possível identificar que as críticas às práticas adotadas pelo Governo distópico servem como uma luva para se condenar os métodos utilizados nas ditaduras do Estado Novo e Militar (de direita), por aqui, onde a censura e a tortura se fizeram presentes. Mas chama muito a atenção, também, a forma de concepção do “Partido”, que, embora, dentro do contexto em que foi escrito pelo autor, faça uma referência direta ao Stalinismo, pode – e deve – ser pensado em outros contextos históricos, cujo objetivo final seja o totalitarismo (tanto de esquerda quanto de direita).
Um governo que se funda na figura de um “mito”, de alguém que “tudo sabe” e “tudo vê”. Alguém que se considera “inquestionável”, que julga estarem “todos estão errados”. Só ele “sabe” o que “deve ser feito” e só ele tem “a cura” para qualquer mal que assole a humanidade. Orwell nos mostra que, quando estas experiências estão em curso, o poder pelo poder é o objetivo final e a prática totalitária pode se revelar, em qualquer tempo, independente de matizes ideológicas, uma vez que é da essência humana distorcer concepções políticas e econômicas, ou levá-las a interpretações extremas, com o único objetivo de atender a seus interesses pessoais.
A importância da literatura, da arte e da ciência
Outro aspecto importante é que o “Grande Irmão” governa à revelia da ciência, da arte e da literatura – isso é central nesta obra! Para dominar, usa de métodos que interditem o prazer, apaguem o passado e reescrevam a história. Mesmo algo que contradiz um fato recente é possível de ser “reescrito”, porque seus seguidores irão se adaptar à “nova fala”; aliás, esse é outro ponto a ser considerado na ideia de dominação do Grande Irmão: criar uma “nova fala”, baseada em um pensamento duplo, no qual se pode odiar um adversário político por uma atitude que se julga desprezível (como a corrupção, por exemplo), quando praticada por ele, mas justificá-la quando praticada pela sua referência, pelo seu “mito”.
O livro refere-se, nesse sentido, a qualquer governo que pretende o apagamento total do “outro” – de todo semelhante que é julgado “diferente”, porque não é permitido pensar ou agir diferente de quem está no poder. Aliás, não se deve pensar! Apenas obedecer! Essa obra nos dá a dimensão de onde se pode chegar quando quem está à frente de um projeto de poder é incapaz de governar para todos, não aceitando a diversidade que é própria das sociedades modernas.
Governos autoritários serão sempre execráveis, seja lá em qual espectro ideológico fundamentem suas supostas crenças! Trata-se de um leitura fundamental, sobretudo, nos dias de hoje!
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