Por que ler distopias?

Nas próximas semanas, vamos trazer resenhas de alguns dos livros que pertencem à literatura “distópica”. Este tipo de ficção apresenta um cenário onde se desenrolam acontecimentos que, em tese, pertencem ao campo do imaginário, mas que, na prática, nos ensinam sobre a própria distopia que tem sido viver no Brasil.

A rapidez com a qual tem circulado uma imensa quantidade de notícias falsas, capitaneadas por apoiadores do atual presidente da República, é algo que nem mesmo George Orwell seria capaz de imaginar ao tão bem descrever o funcionamento do que chamou de “Ministério da Verdade”, no seu livro 1984. Aliás, vale abrir um parêntese para dizer que livros como esse também não tem escapado a interpretações enviesadas e mal intencionadas. Mas isso é só a ponta do iceberg que, de uns tempos para cá, parece ter congelado a capacidade cognitiva e afetiva de uma parcela da população brasileira.

Até mesmo pessoas que pertencem a setores da sociedade que se dizem “liberais”, ou “progressistas”, tem se esmerado em retirar as mensagens passadas pela obra de Orwell do contexto em que foi pensada e escrita. Por isso, este será um dos primeiros livros do gênero que trataremos, em breve, aqui no Sujeito Literário.

Mas, para dar uma sequência cronológica, e procurar situar um pouco melhor quem ainda não teve contato com nenhuma das principais obras que seguem por este caminho, começaremos por Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932. Depois, sim, falaremos de 1984, que é de 1949, procurando resenhá-la a partir da sua historicidade. Na sequência, também iremos tratar de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953. Para muitos, esta é considerada a tríade clássica da distopia, mas não iremos parar por aí.

Ainda este ano, pelo menos duas outras obras distópicas serão resenhadas, aqui, e em nosso canal no YouTube. Faremos este esforço justamente porque a leitura destes outros livros também se faz necessária para compreendermos o momento que estamos vivenciando. Estou me referindo à Ensaio sobre a Cegueira, do escritor português José Saramago; e do livro Zero, de Ignácio de Loyola Brandão.

Este último é um brasileiro, importante autor do gênero, mas que, curiosamente, parece ser menos conhecido, no país, do que seus pares internacionais. Isso talvez porque ele toca em feridas que muitos não querem sarar. Narra o cenário distópico (e desumanamente real), enfrentado, no Brasil, durante a Ditadura Militar, com uma narrativa extremamente (e propositalmente) truncada, denunciando os horrores de se viver sob a égide de um regime autoritário.

Ler distopias, em um Brasil que ainda se mostra incapaz de garantir o básico para que possamos nos considerar uma sociedade civilizada, é remexer nas entranhas deste país. É colocar à mostra as vísceras de um passado que se faz cada dia mais presente, embora reinventado, porque é igualmente trágico, cruel e sem escrúpulos com os mais necessitados. Huxley, Orwell, Bradbury, Saramago, Loyola Brandão – entre outros – podem nos ajudar a compreender muito do que está acontecendo, mas também do que ainda pode vir a acontecer, caso cometamos o “erro” apontado por Beatty, em Fahrenheit 451.

Conforme explica o “chefe dos bombeiros” da sociedade distópica apresentada por Bradbury, em que tais profissionais estavam incumbidos de queimar livros, “o crime não é ter livros; o crime é lê-los”.

Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário

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3 Comments

  1. Excelente leitura , hoje vivemos , momentos de “queimas” de livros , quando a Fundação Palmares resolve retirar clássicos do seu acervo .

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