Falo em efeito(s) Werther, porque essa ideia, no singular, remete a um fenômeno, do século XVIII, que atribui à leitura do livro Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, uma influência no aumento de casos de suicídio “por imitação” ao protagonista da obra. Werther, como se sabe, decide por fim à própria vida por não ter o seu amor correspondido por Charlotte, já comprometida com outro homem, mas esta decisão de “por fim a existência” pode se dar de diferentes formas!
A ideia, hoje, parece clichê e simplória, mas vai além se considerado o aspecto da rejeição que Werther sofre, ao não ser aceito no círculo dos nobres da sociedade de sua época e, além da desilusão amorosa, não conseguir uma posição social de destaque. Some-se a tudo isso o fato de Wether contrapor a razão – preponderante nos ideais iluministas, – à emoção.
Acontece que o protagonista não só é alguém que sente tudo com grande intensidade, como também poderia ser considerado um “narcisista”, segundo a definição de Calligaris, que tanta falta nos faz nos dias de hoje! Para o psicanalista, o “narcisista” não seria aquele referido no mito de Narciso, apaixonado por si mesmo, mas alguém que “depende totalmente da aprovação dos outros para se definir e decidir o seu próprio valor”. Alguém que, por definição, “se orienta, na vida, só pela esperança de encontrar aprovação do mundo”.
Este é um outro possível “Efeito Werther”, ao meu ver, cada vez mais presente nos dias de hoje. Existir, ou deixar de existir, seria algo definido não só pela aprovação dos demais, com curtidas, likes e interações, nas redes, mas, também, pelas potenciais ações influenciadoras de humor sobre aqueles “arrependimentos” – ou “pentimentos”, para ficar no termo utilizado por Calligaris – que vamos tendo ao longo de nossas vidas.
As redes não apenas nos provocam a afirmar – e reafirmar – o tempo todo uma identidade. Elas nos condenam a imaginar caminhos que poderíamos e, talvez, até “deveríamos” ter tomado. Quando se vive no passado e no futuro, o presente não serve! Estamos, de certa forma, matando a nossa presença neste mundo, mesmo sem sentar numa escrivaninha, deixar uma carta de despedida e puxar o gatilho contra a têmpora.
O “Efeito Werther” contemporâneo, me parece, é este: uma espécie de reprodução da cena derradeira do livro, em câmera lenta. Cada olhar para o presente não nos faz apreciar a “vida pela vida”, com ela se bastando por si mesma, como nos provoca a pensar Calligaris, mas, sim, como algo que poderia/deveria ter sido, que não poderia ser mais, que se perdeu em meio a infinitas possibilidades que a “vida dos outros” nos indica que poderia ter sido o nosso próprio caminho. O arrependimento é o cartucho, na arma da imaginação, que fere primeiro o inconsciente, matando o desejo, aos poucos, e nos tirando a vida, antes mesmo que ela se esvaia.