Um sonho

Essa noite eu sonhei que uma mulher com um lenço branco, enrolado na cabeça, me mandava escolher entre algumas pedras que iriam traçar o meu destino entre a vida e a morte. Eram pedras de rios, ou rochas naturais, de diversos tamanhos, e eu refleti pouco até decidir as que me pareciam as corretas. Ela não falava, mas, de alguma forma, eu a ouvia, e ela se dispôs a me ajudar nas escolhas que eu fazia. Não me permitiu escolher algumas das primeiras que apontei, mas concordou com outras. Definitivamente ela estava disposta a me auxiliar e desfazer meus argumentos. Até mesmo a mim, as justificativas pareciam sem fundamento: a escolha por “esta” e “aquela pedra”, se baseava meramente na aparência, mas fui prontamente corrigido. Não sei quem era aquela mulher. Nunca a tinha visto. Mas me passou segurança e sabedoria.

Não costumo lembrar dos meus sonhos. Mas fiz questão de manter esse na memória – ou no pré-consciente – e estou, aqui, escrevendo, porque o ato de escrever, de alguma forma, pode nos devolver a nós mesmos. No livro Nostalgia, de Mircea Cãrtãrescu, o universo onírico é explorado de diversas formas, inclusive como espaço onde encontramos o nosso processo de criação. Somos personagens de uma história, mas também somos criadores de outras tantas narrativas que, em alguma medida, mistruram-se com a nossa trajetória, sempre com traços marcantes da nossa infância a influenciar a vida adulta.

Élisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, nos diz que os sonhos servem para “exprimir os nossos medos e a maneira de exorcizá-los”. O sonho, nesta perspectiva, seria, ao mesmo tempo, o medo e o próprio remédio para o que ele provoca. O fato é que não podemos controlar os medos, da mesma forma que não conseguimos controlar o que sonhamos. A grosso modo, para Freud, o sonho não é algo “aleatório”, mas um processo psíquico, bastante complexo, que serve como uma espécie de ponte a nos conduzir até o que está oculto em nosso inconsciente.

Eu estaria escolhendo as pedras que irão pavimentar o meu caminho? Nem sempre fazemos escolhas conscientes sobre a vida e a morte. Existem várias formas de provocar o nosso fim, não apenas físico, mas simbólico. Algumas daquelas pedras eram do tamanho de um dobrão. Tenho uma na minha estante, até hoje, mesmo que eu não esteja mais praticando capoeira regularmente.

Pego a pedra e a observo na palma da minha mão; passo o dedos sobre ela. Ao toque, sinto sua espessura e temperatura. Fecho os olhos, volto ao sonho, às escolhas, às pedras que constroem os nossos caminhos. Pedras que, ao vibrar de um arame, esticado em um pedaço de pau, fazem música. Pedras que tocam a alma e me transportam para um lugar invisível, indefinido e indecifrável. Eu não costumo lembrar dos meus sonhos. Mas esta mulher, que me ajuda a escolher as pedras com as quais eu pavimento o meu caminho, tem uma sabedoria oculta que foge ao meu entendimento. Está em um universo onírico, que só se faz de alguma forma acessível quando a pedra que tenho em mãos produz poesia, ao toque do berimbau!

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