Rubem alves desenvolveu uma interpretação do Jardim do Éden, no seu livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, que enfatiza o poder da Beleza diante do caos. A Beleza seria “a sombra de Deus no mundo”. Não há castigo, não há dor, não há punição ou sofrimento. A Beleza faz a Lótus emergir das águas lamacentas do caos e, com ela, o caos amansa.
Deus é como um artista. O melhor dos músicos. Deus é a própria Poesia. E o Paraíso só ganha significado na Beleza do prazer, no abraço do amor. A Beleza acalma a fúria. A Beleza organiza o caos. O caos se rende. A Beleza não almeja nada grande. É assim que a Beleza forma a Terra, como lugar possível para que o prazer nos aproxime de Deus.
Deus só vive no Paraíso porque é o lugar do prazer. É lá que ele quer morar eternamente. Lugar inspirador, onde Deus – ou a Poesia – escolhe viver, abandonando o céu, dispensando templos, e até mesmo as orações, porque a própria Beleza se constitui na oração mais profunda.
Mas o Paraíso aplaca a tristeza por meio de algo mais. A Beleza organiza o caos, mas é solitária e triste. É com a Música que Deus espanta tristeza e não com a Beleza. Deus – ou a Poesia – é concebido como um flautista, mas não um flautista comum. Sua música aproxima homens e mulheres; sua música é como um caracol. Não há cobras nesse Jardim. Não há frutos proibidos.
O caracol toma forma de homem e mulher, enroscando-os, de modo que já não é mais possível saber quem é um e quem é o outro. Essa é a vontade de Deus! É do amor que surgem as primeiras palavras. O Paraíso existe! Mas ele é feito de prazeres e não de culpas…