Tem um poema de Cássia Janeiro que nos faz a pergunta mais importante de todas: o que sobra com a partida de quem amamos? E o que fica? Depende…
Um dia, cansado dos meus lutos, me veio a imagem de que o mundo se parecia com um grande aeroporto. Minha mãe partiu em um ano. Meu filho chegou no ano seguinte. As idas e vindas seguiram, como era de se esperar, mas me incomoda que a maioria não tenha nem mesmo o direito de escolher se vai sentar na janela, apreciando a vista, ou no corredor, sem vislumbrar o trajeto.
“Nunca é tarde demais”, disse o professor Morrie Schwartz, diante da sua sentença de morte, ao ser diagnosticado com uma doença degenerativa. O crepúsculo prenuncia noite, nos lembra Rubem Alves ao falar da velhice. Sim. A noite é o fim. O fim do dia. Mas a noite também nos avisa que um novo dia está para nascer e, se o sol que brilha na manhã seguinte é o “novo”, porque ficamos tão ansiosos com a passagem do tempo?
Acredito que seja porque ninguém nos ensina a estar presente. Distraídos, fugimos do momento atual. As redes sociais fazem isso muito bem, nos roubam o instante que não vai voltar. A boa notícia é que ainda existem alguns instantes. Não sabemos quantos. Mas não devemos embarcar em nenhuma viagem sem contemplar o trajeto. Já estamos em algum lugar e é justamente neste espaço de tempo que reside o que há de mais importante, porque não tem nada mais urgente do que o aqui e o agora. O que sobra? Cássia diz que apenas “nós” sobramos, quando o ser amado se vai. Mas este “eu” que sobra, este “nós” que fica, só pode realmente existir se estiver presente para todos os demais que, assim como cada um de nós, ainda tem a chance de se emocionar com as paisagens…
Texto e foto: Eduardo Menezes ©