A expressão pode parecer absurda, sobretudo aos que não acreditam na imortalidade; para estes, pouco se tem a dizer depois que o cérebro encerra as suas atividades. Haveria alguma probabilidade de sobrevivência para a “consciência humana” no pós vida ou fecham-se as cortinas e surge o “nada”? A ausência é algo difícil de imaginar, embora seja um prato cheio para a imaginação.
Acreditando, ou não, na sobrevivência da consciência após a morte, como este ente – abstrato para a maioria de nós – sofreria um “suicídio”? Em seu livro O teatro do bem e do mal, o escritor uruguaio, Eduardo Galeano, explica que existe uma forma pior de abdicar da própria vida material. Ao falar do racismo, que se impôs nas ilhas do Mar do Caribe, durante a conquista europeia, a partir do século XVI, ele diz que, para escapar do trabalho escravo, muitos índios optaram por tirar a própria vida. As opções, naquele momento, eram o veneno e o enforcamento.
Essas mortes, trágicas, são contrapostas pelo autor ao refletir sobre os que optaram pela resignação. Estes, conforme Galeano, escolheram outra forma de suicídio: assassinaram as próprias “almas”. Mas o que difere esta forma de suicídio das práticas anteriores? Aí está o ponto a ser refletido na vida de cada um de nós ainda nos dias de hoje.
O suicídio da alma consiste em “aceitar olhar para si mesmo com os olhos do amo”, nos lembra o escritor. Esse comportamento é simbólico na luta pela busca da identidade e nas lutas que se travam a partir da resistência dos povos indígenas naquela época. O líder Tupac Amaru II pereceu diante do exército espanhol. Herdeiro do Império Inca, foi preso, teve sua língua cortada e o corpo arrastado e esquartejado por cavalos. Alguns chamam de “suicídio” o seu ideal de liderar a maior rebelião anticolonial da América, no século XVIII, depois de tudo que seus antepassados passaram. Mas Tupac Amaru não se sujeitou ao “suicídio da alma” e nos deixou um legado.
Sim, iremos morrer. Nossa passagem por esta terra é transitória, mas que, antes disso, sejamos dignos de olhar para nós mesmos com os nossos próprios olhos. Não deixemos que o “olhar do outro” nos diga quem nós somos. Esse “olhar” sempre será enviesado. O olhar do “amo”, nos séculos de colonização europeia, é o mesmo olhar de quem julga ter algum poder sobre nós, geralmente esse poder se exerce por meio do dinheiro, mas também existe um capital emocional que pode ser tão cruel quanto – ou pior, se somado – no exercício de submissão.
Lutar por uma batalha que já se mostra perdida é um ato de coragem e não um suicídio; enquanto a resignação é o primeiro passo para o suicídio da alma, a verdadeira luta é a ressureição do espírito adormecido. É a resposta a toda imposição que se pretende definidora de quem nós somos e o maior exemplo de liberdade que podemos alcançar.
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