A dor precisa ser sentida: o poder da literatura

“Senhor, já que a dor é nossa. E a fraqueza que ela tem, dá-nos ao menos a força, de a não mostrar a ninguém” (Fernando Pessoa – Cancioneiro)

As dores são múltiplas na sociedade de hoje. Apressados, somos cada dia menos capazes de entender a importância e a beleza de se deixar sentir aquilo que nos machuca. Rubem Alves, em seu “Ostra Feliz não faz pérola”, nos conta que os gregos aprenderam a “transformar a tragédia em beleza”, como fazem as ostras tristes, no fundo do mar, quando um grão de areia invade suas duras cascas, responsáveis por protegê-las dos predadores. Para livrar-se deste desagradável inquilino é preciso se dispor ao trabalho de “envolvê-lo em uma substância lisa, brilhante e redonda”, que só é produzida diante da necessidade de libertar-se do incômodo provocado por algo externo que invade e machuca. É assim que são produzidas as pérolas!

Quantos de nós não estão endurecidos e, por isso, não permitem que os grãos de areia penetrem no mais íntimo do nosso ser? Por que esse medo de experimentar a dor? A metáfora da ostra sofredora, que, diferente das ostras felizes, é a única capaz de produzir pérola, serve para pensar na dinâmica da “sociedade paliativa”, de hoje, conceito cunhado por Byung-Chul Han, que, por definição, caracteriza-se por ser uma “sociedade do curtir”.

Na sociedade de hoje, “nada pode provocar dor”. Não apenas a arte, mas também a própria vida tem que ser “instagramável”. Busca-se a distração a todo custo! Anseia-se pela aceitação dos pares, criando-se a necessidade do “like” e esquecendo-se do que nos lembra Rubem Alves: a dor é necessária para produzir as pérolas, em nossas vidas, ou, como diria Han, “a dor purifica”.

Contardo Calligaris, em “O sentido da vida”, também contribui com essa discussão. Para ele, mais importa uma “vida interessante” do que “uma vida feliz”, porque, afinal, como poderíamos definir o que é “uma vida feliz”? Quem poderia dizer que está feliz o tempo todo? Não, diante de tantos absurdos, como as guerras, a fome, a intolerância e os sofrimentos de toda ordem, é impossível que a felicidade torne-se algo permanente, como as “ostras felizes”, descritas por Rubem Alves, que debochavam da “ostra triste e solitária”, enquanto elas, contentes, cantavam, distraídas, sempre a mesma canção!

Músicas, poemas, prosas e toda ordem de criação artística relevante para o desenvolvimento humano, são motivadas pelo absurdo da existência humana. Afinal, onde está Godot que não chega? Samuel Becket nos coloca diante deste problema insolucionável, com sua peça de teatro, nos obrigando a olhar para o abismo que tenta se mostrar, diariamente, no cotidiano. Os dois vagabundos somos nós. Eu e você, caro leitor. Estamos, aqui, diante desta tela, como Vladimir e Estragon, sentados embaixo daquela árvore. Godot não virá! Mas a dor representada nesta peça de Beckett também está presente aqui.

A vida interessante, da qual nos fala Calligaris, necessita da aceitação da dor como uma manifestação existencial, porque é, necessariamente, apesar dela – e somente apesar dela -, que podemos encarar o absurdo da existência humana com dignidade.

Esse é o poder da literatura! Além de Beckett, obviamente Pessoa sabia muito bem disso. “Que importa? Perdida. Série de notas vaga e sem sentido nenhum, como a vida”. Sim. Enquanto escrevo – e retiro essa pedra invisível do meu sapato -, mesmo que a dor permaneça, mesmo que não faça sentido, mesmo que possa não ser lido para além da minha própria experiência de ler enquanto escrevo, algo dentro de mim passa a envolver essa dor com uma substância que pretendo imaginar “lisa, brilhante e redonda”.

Doem “os esforços em vão”. Quixotescamente, dói, sobretudo, isso: o esforço inútil, que tomou o tempo de estar com quem importa. O sonho e a utopia sequestrados por quem vive de distrações e é incapaz de olhar para o outro como um espelho. Hoje, dói aqui; amanhã, doerá, também, em quem nos fez sofrer. Isso é fato. Talvez eles optem por anestesiar suas dores – e isso é um direito que possuem. A indústria farmacêutica agradece!

Aqui, no entanto, a dor está me fazendo escrever. Ler e escrever, sem preocupações com “likes” ou “visualizações de conteúdo”, apenas a leitura e a escrita como gestos, porque não posso impedir que a dor se torne “escrita”, “fala” e expresão. A livre expressão da minha dor! A palavra é isso. Essa é a sua verdade e essência. Usá-la é estar vivo e atento para a “vida interessante”. Jamais sem dor, mas existindo com ela e apesar dela!

Veja o vídeo sobre o tema:

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