Minha relação com os livros

Eles estão ali. Alguns já me conhecem e eu os conheço muito bem. Outros aguardam o seu momento, pacientemente…

Os dias passam, as noites parecem sempre uma nova oportunidade para serem eleitos, mas nem sempre ocorre. Eles enfrentam a umidade e o pó, de lombada firme, sempre a postos.

Mesmo que alguns desbotem com o passar do tempo, nunca deixam de se mostrar prontos ao toque dos dedos; geralmente o indicador primeiro, seguido do apoio do polegar, fazendo-os deslizar, suavemente, para aconchegar-se no calor das mãos.

Enquanto suas páginas correm entre os dedos, as mãos que o seguram, firmes, trazem a esperança. Nem sempre, no entanto, este contato se torna permanente. Não raro eles retornam à posição que ocupavam ou nem mesmo isso.

Mas quando são escolhidos, algo muda. Cria-se uma relação com aquele que, ao tocá-los, torna-se, mesmo que momentaneamente, parte daquele texto.

É transcendente a relação entre o leitor e quem o escreveu. Mortos ressuscitam e vidas jamais vivenciadas tornam-se parte de quem já não pode sair daquelas páginas o mesmo.

A leitura é abrigo, consultório médico, terapeuta. É uma máquina do tempo. Uma palavra que nem sempre te diz tudo, mas que oferece um ou muitos caminhos a seguir. O livro é um verdadeiro amigo. O mais fiel de todos. Nunca é ele que te abandona. Com a leitura concluída, após anotações, marcações de toda ordem e diversos lugares onde repousou a tua espera, aceita voltar, resignadamente, à estante.

Pode ser que você nunca mais lembre dele ou tenha com ele outro contato, mas alguém terá – e ele sabe disso. Como as árvores, que gestaram o papel do qual origina-se sua matéria-prima, eles sobrevivem, enfrentam as marcas dos anos, aceitam que as traças deles se alimentem e ficam mais sábios com as anotações em suas páginas. Anotações, estas, que se transformam em cicatrizes, mas quando bem grafadas, os fazem ostenta-las como tatuagens.

Se um dia eu escrever um livro, quero que seja breve, mas profundo. Quero que seja capaz de transformar não só quem os eleger para o toque das mãos e o entrelaçar das almas, mas que possa inspirar o envolvimento real e permanente com a escrita, onde nem leitor nem livro saem ilesos!

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