A importância da literatura de não ficção: quem te inspira na História da América Latina?

A literatura de não ficção é muito referenciada, mas, de modo geral, pouco encarada para além dos compromissos acadêmicos. Não raro as pessoas optam pela ficção como meio de leitura não obrigatória. Esse, ao meu ver, é um dos maiores problemas que enfrentamos, hoje, no processo de educação política da sociedade brasileira. E não falo isso de um ponto de vista elitista, em que apenas os “intelectuais”, os que “leem muito”, podem assegurar o saber necessário para mudar as estruturas de poder e compreender o seu lugar social, muito pelo contrário.

Falo do ponto de vista de quem entende a necessidade de romper a limitação da história “narrada pelos vencedores” – como diria Eduardo Galeano. Falo a partir de uma compreensão, recente, de que é preciso justamente contrapor as visões elitistas, que se travestem de discurso popular, engajado e transformador. Quero, com esse movimento de incentivar a leitura de não ficção, propor que a sociedade, de modo geral, conheça personagens esquecidos – ou preteridos – mesmo no campo dito “progressista” da nossa sociedade.

Discurso não basta

O discurso não basta. A prática é a melhor forma de contrapor os discursos decorados, vazios, repetitivos, enfadonhos e que tem entregado o país de mão beijada para a extrema-direita. Por isso, antes de reivindicar nomes como José de San Martín e Simón Bolívar, que ocupam lugar de destaque na defesa dos interesses de todos nós – latino-americanos -, reivindico nomes como o do escravizado Pedro Camejo, dos líderes indígenas Tupac Amaru II e Mateo Pumacahua, dos padres Miguel Hidalgo y Costilla e José María Morelos y Pavón, e da líder guerrilheira Juana Azurduy de Padilla.

Somente pela literatura de não ficção podemos chegar até estes nomes e, ao reivindicá-los, colocar em pauta a importância de homens e mulheres comuns, que de fato colocaram seus discursos em prática, sem patrocínios e interesses econômicos por trás da luta que reivindicavam como suas! Essa reflexão não se faz tão necessária hoje? Onde estão as verdadeiras convicções daqueles que dizem lutar em defesa dos explorados, dos trabalhadores? Esses discursos se coadunam com a realidade ou não passam de demagogia?

Quais os teus exemplos?

Pedro Camejo, também conhecido como Negro Primero, participou dos exércitos de Bolívar e morreu no campo de batalha, em Carabobo. Os negros, escravizados, foram decisivios nas batalhas pela independência dos países latino-americanos. Mesmo sendo protagonistas, como na experiência das lutas pela independência do Haiti, o destaque, quando se fala sobre a luta pela independência na América Latina, fica para Simón Bolívar, que teve sua importância, mas só é mais enaltecido, na historiografia oficial, por conta da sua condição de ascendência europeia, tendo nascido nas colônias da América – integrante do grupo identificado como criollos.

Vale lembrar que Bolívar, embora mereça reconhecimento pela sua liderança militar, era descendente de uma família de ricos fazendeiros de cacau e recebeu patrocínio destes para sua empreitada. Pra ele, era uma luta em defesa de interesses econômicos e pessoais, de quem vivia na colônia e queria comercializar livremente com outros países, contrapondo-se aos interesses da Coroa Espanhola. Vale lembrar que Bolívar era contra a participação popular na política e, no pós-independência da Venezuela, demonstrava uma posição elitista em relação às eleições, ressaltando uma suposta superioridade das chamadas “classes dirigentes”.

Elitismo e contradições dos chamados “grupos dirigentes”

A posição de San Martín e seus seguidores, na Argentina, seguia a mesma perspectiva. A luta entre “unitários” e “federalistas” girava em torno dos interesses políticos e econômicos das elites locais, que diferia em cada uma das regiões: Buenos Aires, Entre Rios e Santa Fé e o interior. A ideia de democracia, como muito bem nos revelam as professoras Maria Ligia Prado e Gabriela Pellegrino, no livro História da América Latina, tinha como base um pensamento elitista e preconceituoso, mesmo que os liberais defendessem a República e propusessem um Estado separado da Igreja.

José Maria Luis Mora, que sintetiza os ideais liberais, no México, identificava-se com o ideário francês e advogava contra os privilégios coloniais do Exército e da Igreja, mas considerava perigosa a palavra “igualdade”. Ele refutava as ideias de Jean-Jacques Rousseu, discordando do conceito de “vontade geral” e propondo uma “autoridade competente” para controlar esta vontade nascida da soberania polular. Resumindo, nenhum destes líderes revolucionários e defensores das liberdades individuais e democráticas considerava que mulheres, índios, brancos pobres e mestiços tinham a competência necessária para decidir os rumos de suas vidas, elegendo quem melhor poderia lhes representar.

Raro hoje: discurso associado à prática

Tupac Amaru II foi a liderança indígena que esteve à frente da Grande Rebelião, ocorrida nos Vices- Reinos do Rio da Prata e do Peru, no final do século XVIII. Mesmo derrotado, tornou-se símbolo da resistência e coerência na luta pela independência e defesa dos interesses dos povos indígenas da América Latina. Já o cacique indígena, Mateo Pumacahua, antigo adversário de Tupac Amaru, era descendente da nobreza Inca. Foi ele quem liderou a Rebelião de Cusco, durante a Guerra da Independência do Peru, lutando ao lado dos insurgentes até ser capturado pelas tropas do Exército Real. Mas esta é uma figura controversa. Antigo aliado do Exército Real, tendo derrotado Tupac Amaru II, durante a rebelião de 1780 e 1781, ao final de sua vida, então com 75 anos, Pumacahua virou-se contra a Coroa, passando a condição de inssurrente, deixando uma lição sobre dar sentido a vida mesmo no momento derradeiro.

Os padres Miguel Hidalgo y Costilla e José María Morelos lideraram os exércitos de mestiços e indígenas pela independência do México. Eles defendiam os direitos das classes mais pobres, tendo Hidalgo proclamado a abolição da escravidão negra e o fim dos tributos pagos pelos indídenas. Enquanto a Igreja Católica se colocava ao lado dos realistas, os dois padres assumiram o lado dos mais fracos e explorados, durante o processo de independência. Também é importante lembrar do papel que cumpriu Juana Azurduy de Padilla, nascida no sul da Bolívia, que liderou mais de 20 ações armadas na luta pela independência em relação à Coroa. Ela esteve no front de batalha tanto ao lado de seu marido quanto após a morte dele, criando um grupo de mulheres guerrilheiras, chamadas de “Las Amazonas”.

Sem a leitura atenta dos eventos históricos relevantes, como a independência dos países da América Latina, estamos condenados a repetir o que os outros dizem e enaltecer figuras e acontecimentos históricos sem que sejam alocados em seus devidos contextos e relativizados em suas devidas complexidades. Fica, aqui, portanto, uma saudação muito especial à Pedro Camejo, Tupac Amaru II, Mateo Pumacahua, Miguel Hidalgo y Costilla, José María Morelos y Pavón e Juana Azurduy de Padilla.

A minha reverência àqueles que colocaram em prática os seus discursos e lutaram pela independência dos países da América Latina, mesmo precisando rever posições e situados em um contexto histórico muito diverso do de hoje. Nenhum deles optou por cumprir o papel, tragicômico, do discurso fácil que busca se adequar interesses pessoais, colocando as pretenções econômicas em primeiro lugar!

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