Ler e compreender o que se lê: um desafio para a nossa geração

A diminuição do público leitor, no Brasil, é uma realidade que preocupa. E preocupa por diversas razões. Vamos falar abertamente, não basta apenas ler, é preciso compreender o que se lê! Seja por mera distração ou para adquirir conhecimento, a leitura é parte constitutiva da vida em sociedade há milhares de anos, mas, como aponta a neurocientista Maryanne Wolf, ler não é algo natural, muito menos inato, e sim “uma invenção cultural que existe, se tanto, há seis mil anos”.

Em sua obra “O cérebro no mundo digital“, a pesquisadora trata dos desafios da leitura, nos dias de hoje, defendendo a necessidade de cultivarmos a leitura profunda, mesmo com a transitoriedade entre o livro físico e o livro digital. As preocupações da autora são pertinentes e levantam uma questão que tem me incomodado cada dia mais: até quando vamos fingir que esta é uma discussão apenas para o futuro?

Não são somente as gerações mais novas que estão enfrentando dificuldades para realizar pocessos cognitivos complexos, comprometendo o desenvolvimento da imaginação, da empatia e da formação de um senso crítico, mas todas as atuais gerações; de adultos jovens aos mais idosos, todos sofrem os mesmos impactos da aceleração da vida moderna, pautada pela dinâmica da hiperconectividade e da distração intencional provocada pelas redes sociais. E se estamos falando de adultos e idosos que não desenvolveram a leitura profunda em suas rotinas, desde a infância, como esperar que possamos avançar em todas as áreas que julgamos necessárias para evoluirmos enquanto sociedade?

Lendo menos e sem compreender

Não espanta que aproximadamente 30% dos brasileiros sejam incapazes de fazer um uso eficaz da escrita e da leitura no seu cotidiano. Menos ainda que tenha ocorrido uma redução de 6,7 milhões de leitores por aqui. Os dados, que foram divulgados, respectivamente, na última edição do levantamento do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) e na Pesquisa Retratos da Leitura, ambos de 2024, são avisos muito claros: lemos cada vez menos e, quando lemos, nada assegura uma compreensão adequada daquilo que foi lido.

O relatório da Pesquisa Retratos da Leitura sugere, ainda, que os motivos para o desinteresse pela leitura estariam concentrados entre a preferência por “outras atividades” e a “falta de tempo”. O curioso, ao meu ver, é que muito daquilo que é considerado “outro tipo de atividade” se concentra em passar o dedo para rolar a tela de um celular e, justamente, a suposta “falta de tempo” pode ser explicada pelo período médio que os brasileiros passam conectados à internet, que é de aproximadamente 9h por dia, de acordo com o relatório “Digital 2024: 5 Billion Social Media Users“, produzido pela We Are Social e Meltwater.

Ler é furar bolhas

Lemos menos, compreendemos pouco e seguimos ignorando os únicos movimentos que podem assegurar as mudanças que queremos ver no mundo. Não há mudança possível, em qualquer época e em qualquer sociedade, sem os fatores inerentes ao desenvolvimento da leitura profunda. Ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros, vivenciar experiências humanas diferentes das que estamos habituados e estar disposto a compreender os pontos de vista que, a priori, não concordamos, são movimentos que nos levam em direção à democracia em seu estado pleno. Ninguém “sabe tudo” porque pode tirar dúvidas pontuais “dando um google” e nunca saberá sequer onde se pociona no mundo, se ficar consumindo conteúdos de forma superficial dentro de suas bolhas nas redes sociais.

Confira a resenha do livro citado neste artigo:

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