Memória para o esquecimento, de Mahmud Darwich

Chego ao final da leitura de Memória para o Esquecimento, do poeta palestino Mahmud Darwich, com um buraco no meio do peito.

Quem entende melhor o que se passa na Faixa de Gaza do que os exilados da Nakba – a grande catástrofe que levou centenas de milhares de palestinos a um processo de êxodo forçado, em 1948?

Neste livro, o poeta se torna, também, um historiador. Narra o cerco israelense à Beirute, em agosto de 1982. E, ao fazer isso, nos transporta para o meio do bombardeio à cidade libanesa, que havia se tornado um lar para muitos daqueles que foram proibidos de viver em suas próprias terras, depois de uma imposição da ONU para divisão do território palestino em dois Estados.

De lá para cá, o lobby pela imigração judia para as terras palestinas só fez aumentar o ódio entre colonizados e colonizadores. A ocupação militar, permanente, de Israel alimenta o desejo de vingança das organizações políticas e militares palestinas, levando seus líderes a se refugiarem em diferentes países.

Foi o que aconteceu em 1982, quando Israel saiu à caça de lideranças da resistência palestina, no Líbano, ceifando a vida de muitos civis, tal qual acontece nos dias de hoje, depois que mais um triste capítulo dessa história foi escrito, em outubro deste ano, com o ataque terrorista do Hamas à Israel.

Mas e sobre o terrorismo promovido pelo Estado de Israel quem ousa falar? Darwish! Ele nos conta sua epopéia ao se deslocar entre a sala e a cozinha, do seu apartamento, para preparar um café – mesmo que fosse o último – enquanto o prédio em que vivia estava cercado pelos bombardeios do exército sionista. E ele sai às ruas! É questionado por jornalistas norte-americanos sobre o que estaria escrevendo durante a guerra. “Estou escrevendo o meu silêncio”, responde.

Mas o silêncio de Darwich fala. Denuncia. Grita! “Eu ainda não morri. Tenho arrastado minha sombra por essa calçada nos últimos dez anos, colocando uma assinatura no meu exílio”.

“Chega! Vamos sair! Dissemos que sairíamos, então por que esse delírio infernal? Chega dessa demonstração desenfreada de força!”

“Se chorei? Eu sangrei o sal líquido, o sal das sardinhas que têm sido o meu único alimento há dias”

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