Acabo de ler Desonra, do escritor africano John Maxwell Coetzee. A história, em si, é bastante simples. Não fossem as entrelinhas…
Um professor, de 52 anos, que acaba se envolvendo com uma aluna mais jovem e vê sua vida mudar completamente, após a repercussão negativa do fato, que o faz pedir demissão.
Ele acaba indo passar um tempo com a filha, Lucy, em um assentamento, na zona rural, desencadeando, a partir daí, uma série de acontecimentos que nos provocam a refletir sobre a realidade da África do Sul, no pós-apartheid.
Um homem que se divorciou duas vezes e se interessa por relacionamentos passageiros, sendo um grande admirador de Lord Byron.
Ele terá como principal interlocutora sua filha, já adulta, independente, e que procura viver sua própria vida, afastada, mesmo correndo os riscos de estar só em uma fazenda, desde que a sua companheira, Helen, a deixou. Lucy tem apenas a companhia dos cachorros que cuida, em seu canil particular, e se ocupa plantando alimentos para comercializar na cidade mais próxima.
Tomando este pano de fundo, o livro trata de uma série de conflitos – sejam de classe ou existências. Questiona o que convencionamos chamar de “relacionamentos amorosos”, trazendo questões familiares importantes de se refletir, em um contexto em que a violência ainda se impõe como balizadora dos conflitos entre negros e brancos.
É interessante como o autor amarra a própria história ao papel transformador da obra de arte e usa a erudição do narrador como elo de ligação entre o que ele está vivenciando em sua vida pessoal e o seu objeto de trabalho intelectual, mostrando a dupla influência que é exercida nos diferentes espaços da experiência humana.
Tudo que fazemos sofre uma influência recíproca, porque estamos numa busca permanente por encontrar um sentido para a vida. E o que fazemos ao perceber isso? Inventamos um “objetivo a ser alcançado” ou um “papel social a ser cumprido”. Pode até funcionar por um tempo. É o que nos resta, afinal; pelo menos até compreendermos que todo esforço pode ser, também, uma forma de desistência…