Existe outra saída! Qual? O mar! Disso sabia Ismael, que não é o protagonista de Moby Dick, mas, como narrador-personagem, nos oferece as motivações para embarcar no Pequod e conhecer Ahab – o velho capitão do navio.
Um homem que, assim como eu e você, tem uma obsessão. Pode ser que a sua esteja ainda oculta, mas um dia ela vai emergir do seu inconsciente, como uma baleia que vem à superfície porque precisa “respirar”.
A partir daí não terá volta. Você vai dedicar a sua vida a perseguir a sua “baleia branca”. Não descansará até que possa conseguir a sua “vingança” pessoal.
Ahab desenvolveu esse fascínio pela caça à Moby Dick porque, em outro momento, ela lhe arrancou a perna. É assim com cada um de nós. Só nos lançamos no “mar da vida”, em busca da nossa “grande aventura”, quando descobrimos qual parte nos foi arrancada, desde que nascemos, porque de alguma forma precisamos que ela nos seja restituída!
Até quando Ahab constrói a prótese para a sua perna, ela é feita do osso de uma baleia! É a metamorfose da vida, irmã gêmea da morte, que se funde ao nosso corpo e nos provoca rumo ao desconhecido, “ao monstruoso”, ao que nos causa o maior dos medos, e que, justamente por tudo isso, nos conduz, em botes precários, ao impossível.
E, se estamos no terreno do impossível, da utopia, da nossa incapacidade de compreensão total do mundo, como não lembrar de Dom Quixote e do seu “mergulho” em direção à aventura mais humana de todas: a busca por liberdade, igualdade e justiça?
Claro que Moby Dick tem outro contexto histórico, que remete ao final do século XIX, tendo como escritor um norte-americano, Herman Melville, que tece duras críticas ao projeto expansionista dos Estados Unidos. Sim! O contexto é importante. Mas a “loucura” de Ahab e Dom Quixote tem algo que encontra a nossa própria loucura. Uma busca, sem fim, pelo inatingível, mas que, ainda assim, é a centelha de vida que nos impulsiona rumo ao mais profundo das nossas convicções, como se para lá estivéssemos sendo conduzidos, sem chance de voltar.
Um convite ao incrível poder da incerteza. Um lugar que só a literatura é capaz de nos levar; seja “preso” à uma baleia ou “montado” em um cavalo!