A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada, de Gabriel García Márquez

Quando lemos Gabriel García Márquez, aquele fio, tênue, que separa a fantasia da realidade, dá voltas em torno de si mesmo e nos enreda de uma forma que nunca mais iremos olhar para o “real” como antes.

Nos sete contos presentes neste livro, refletimos sobre sentenças inquestionáveis; como a do velho Jacob, que “tinha ouvido falar que as pessoas não morrem quando devem, mas quando querem”.

“A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada” é o último e o mais extenso de todos os contos, aqui, presentes. É, também, o que mais me marcou. Ele retoma personagens dos contos anteriores e os envolve, na trama, de forma secundária, mas nada por acaso ou “fora do lugar”.

De um anjo velho, derrubado pela chuva, que vinha buscar um menino doente, mas acaba sendo capturado pelos seus pais e usado para ganhar dinheiro, passando por um suposto “sistema de distribuição de riquezas”, que se mostra cruel, ao usar contra as pessoas aquilo que de melhor elas sabem fazer, chegamos a uma avó, desalmada, que trata a neta como empregada, e, após um acidente em que a sua casa pega fogo, culpa a menina pelo acontecido e a faz pagar o prejuízo se prostituindo.

São personagens que vivem dramas reais, em situações permeadas pelo elemento do realismo mágico, como que em forma de metáforas, para escancarar os dramas sociais da nossa América Latina. Assim, percorremos cada um destes contos encarando de frente o resultado dos anos de exploração das nossas riquezas naturais e de escravidão dos povos originários.

De tanta injustiça e opressão, é claro, a vida e o amor pulsam em paralelo com o medo e a raiva, sobretudo, o medo da morte e a raiva da vida.

Embora o autor não “ressuscite mortos”, porque “os que não se suicidam voltam a morrer de desilusão”, nos aconselha a “regar as sepulturas”. Sim. Um dia, se tivermos sorte, farão o mesmo por nós. Não de modo a chorar sobre os nossos túmulos, mas, quem sabe, a deixar que possamos, calmamente, abandonar o “mar das catástrofes comuns” e adentrar o “mar dos mortos”, serenos, devolvendo à terra, como em agradecimento, um “estranho cheiro de rosas”.

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