“Portanto, se fosse para fazer de novo o senhor faria?
Respondi energicamente:
– Refaria, se me fosse dada a ordem”
Essa foi a resposta do oficial nazista, Rudolf Lang (codinome de Rudolf Hoess), ao ser questionado sobre a sua responsabilidade pelo assassinato, em massa, de mais de 5 milhões de judeus, durante o holocausto, quando comandava o campo de concentração de Auschwitz.
Confesso que, em diversos momentos, durante essa leitura, foi preciso parar, fechar um pouco o livro, e respirar. A publicação de “A morte é meu ofício”, de Robert Merle, em um momento político como o que vivemos, hoje, no Brasil e no mundo, torna esta leitura uma questão de utilidade pública.
Há 70 anos, quando o livro foi publicado, a principal crítica que recaiu sobre o autor foi de que teria “humanizado um monstro”, já que a história é narrada em primeira pessoa, contando cada detalhe da vida de Rudolf, desde a infância até a data do seu julgamento, no tribunal de Nuremberg, quando foi condenado à morte.
Mas é justamente este o aspecto que eu gostaria de ressaltar como o ponto alto desta obra. Seria impossível entender como um ser humano chega ao ponto de tratar vidas como “unidades descartáveis”, esforçando-se ao máximo para cumprir ordens e acelerar o processo de execução sumária de judeus, se não compreendermos como se dá a formação dessas mentes frias e calculistas.
A educação, sobretudo familiar, é a chave para tudo e assim funciona até os dias de hoje. Rudolf não era “temente à Deus”, mas seu pai era. Um fanático religioso, que impunha à ele, desde cedo, uma educação para a obediência, sem possibilidade de diálogo ou contestação. Isso o acompanhou para o resto da vida. A imagem de “Deus” foi rapidamente substituída pela do líder supremo e da nação, “acima de qualquer coisa”.
Uma pátria com inspirações nazistas não se impõe de um dia para o outro, por decreto. Ela precisa ser instrumentalizada para isso. Foi assim ao longo da história.
Educar para a pluralidade de ideias, colocando a democracia como inegociável, em qualquer tempo, é o único caminho possível para evitar a formatação de mentes dispostas apenas a “seguir ordens”, sem ter a capacidade de questioná-las.
Em breve resenha, em vídeo, no canal: