Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Após deixar o Mapa da Fome, em 2014, neste ano de 2021 o Brasil voltou a esta condição de miséria extrema. Negar esta realidade nos coloca em uma posição de cumplicidade com este cenário estarrecedor. O aumento vertiginoso das filas, nos açougues, em busca de ossos, é o retrato de um país que, na década de 1950, teve a favela classificada como “Quarto de Despejo”, nos diários da escritora Carolina Maria de Jesus.

Os relatos dessa mulher migrante, que se deslocou de Sacramento-MG para a cidade de São Paulo, têm muito a nos dizer nos dias de hoje. Mulher, negra, periférica, Carolina criou seus três filhos – João José, José Carlos e Vera Eunice – sem a ajuda de ninguém e enfrentou a fome – muita fome! A fome, aliás, é a protagonista deste livro, ao lado da própria Carolina.

Ao chegar em São Paulo, ela trabalhou como empregada doméstica, mas, ao ser demitida, após engravidar do seu primeiro filho, teve de enfrentar a vida nas ruas. Com a chegada de um “importante” político à cidade, Carolina e outras pessoas em condição de rua foram “despejadas” na extinta favela do Canindé – local, hoje, onde passa a Marginal Tietê.

Assumindo o ofício de catadora de Papel, Carolina procurou tirar o seu sustendo dos materiais recicláveis que encontrava pela rua. Mas não foi só isso que ela encontrou. Encontrou desprezo, preconceito racial, doenças, mortes, violências de todo o tipo e a fome! Sim, ela de novo! A grande protagonista.

Fome que fez com que pensasse em convidar seus filhos para se matar, após recorrentes situações em que tiveram de comer do lixo ou passarem dias sem comer. Fome associada à esquistossomose. Fome que tirava a energia até para ler e escrever. Fome que dividia seus malefícios com um cenário em que a violência sexual e psicológica, contra as mulheres, não escolhia parentesco nem idade. Realidade que, ainda hoje, tem deixado marcas nas tantas Carolinas que não tiveram a sorte de ter seus diários descobertos.

A leitura e a escrita sempre acompanharam Carolina. Foram as ferramentas utilizadas para se agarrar a vida, ou melhor, a esta sobrevida, que só permitia transcender a condição de miséria nos sonhos. Mas eles eram sempre interrompidos. Sim, pela fome. Mas não só! Também pela necessidade de buscar água, cedo da manhã, já que não tinha água encanada em casa. Mesmo assim ela lia e escrevia. Mais do que isso. Ela não permitia que seus filhos deixassem de ir à escola e não se permitia dormir sem ler.

Carolina não ficou rica. Sua história de vida destroça qualquer lugar comum que procure falar em “meritocracia”. Chegou a conceder entrevista a grandes veículos de comunicação da época, vendeu seus livros- editados pelo jornalista Audálio Dantas -, mas, mesmo assim, não deixou a condição de pobreza; apenas conseguiu sair da favela. A revolta de Carolina com esta condição desumana com a qual a população negra e periférica foi – e continua sendo – escravizada – é um grito de socorro! Quem aí tem a coragem de ouvir?

Recentemente, a história de vida das netas de Carolina de Jesus também chegou ao conhecimento do público. Elas dizem viver um “Quarto de Despejo 2”, conforme matéria publicada pela Folha. Lutam, na Justiça, para ter direito aos proventos dos direitos autorais de sua avó, que, atualmente, pertencem à única filha ainda viva, Vera Eunice. O pai das netas de Carolina, José Carlos, faleceu em 2016, vítima de um atropelamento.

Os quartos de despejo seguem assolando o nosso país! A fome extrema retomou o seu protagonismo da década de 1950, condicionando a população negra e periférica – sobretudo, as mães, solteiras – à uma condição de subsistência. O que nós temos feito, efetivamente, para mudar essa realidade? Esse é um problema meu! É um problema seu! É um problema de todos nós que não aceitamos mais viver em um país que se mostra mais preocupado em manter intactas as “imagens de pedra” de racistas e estupradores do que em viabilizar políticas públicas para tirar as mulheres negras e periféricas da fila do osso!

Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário

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