“Fechei os olhos para me lembrar de como era a sensação de dormir. Mas a única coisa que existia para mim era uma vigília na escuridão. Uma vigília na escuridão… que se associava à morte. Será que vou morrer? Se eu morrer agora, o que posso dizer que fiz da minha vida?”
Primeiro livro que li do Murakami, finalizado em um único dia, no 1º de março deste ano de 2021. Já sabia que tinha spoiler de Ana Kariênina, mas, embora não tenha lido o livro do Tolstoi e pretenda lê-lo, preferi passar por cima disso, tamanha minha vontade de entrar nesse universo.
Sono é um conto que possui leitura fluída e agradável, mas que, em meio à simplicidade do texto, vai deixando mensagens que ajudarão a refletir sobre o final, já que o autor não entrega um “final pronto”.
A protagonista narra sua história pessoal, descrevendo, de início, sua relação com a insônia, quando era mais jovem. Já na vida adulta, ela faz questão de dizer que sua condição, insone, não tem nada a ver com essa experiência passada, que tão bem conhece, pois, ao ficar 17 dias sem dormir, não sentia qualquer cansaço físico.
Então aí começa essa viagem. Afinal, de que “sono” o autor nos fala? Se o “sono” deixa de existir, o que resta? Se não “recarregamos as baterias” para seguir os mesmos trajetos de sempre e resolvemos “andar por outros lugares”, que, inclusive, podem nos levar ao passado, o que nos espera?
Falam que o autor trabalha com “realismo fantástico” e esse elemento está, de fato, presente na narrativa, mas eu acho que o Murakami vai além. Ele nos convida a rever a forma como lidamos com as nossas vidas, muitas vezes sem coragem de romper com rotinas e acomodados em situações que se tornam mecânicas. Escancara, portanto, uma espécie de “fantástico realismo”, que não queremos ver, porque, para isso, é preciso “despertar”, antes que chegue o “sono” final.
Destaque para essa linda edição da Alfaguara, com ilustrações incríveis da Kat Manschik. É tão harmoniosa a relação dos desenhos com a história e são artes tão surpreendentes que eu, certamente, consideraria tatuar algumas delas, sem nem pensar duas vezes…
Confere o vídeo trazendo algumas ilustrações desta edição:
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