Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago

Então, Saramago. Pena que você já não está mais aqui para ler o que tenho a te dizer. Antes de hoje, só havia lido o seu incrível As Intermitências da Morte. Não por acaso pouco depois de perder o meu pai. Foi quando comecei a me dar por conta da brevidade da vida. Você ajudou muito ao humanizar o que me parecia um castigo! Mas, agora, nesse livro, você pegou pesado! Fez eu me questionar se estaríamos dispostos a ver o mundo como ele realmente é. Mostrou que não são os nomes – nossos e das coisas – que nos dizem quem realmente somos. Quem nos dá essa resposta é o que estamos a fazer diante da condição humana e da brevidade da vida. A morte? como você bem disse – “não se pega”, mas, apesar disso, todos morremos! O que há de imortal é o que deixamos através das nossas boas e das nossas más ações. É o que você chamaria de eternidade? Diante da morte, não há ódio e amor que se sobressaia, apenas a face nua e crua de uma vida que chegou ao final. Sim. Somos todos iguais nesse momento. Com ou sem obras. Com ou sem visão. Com ou sem razão. Com ou sem compreensão do que se passou em nossas vidas até o derradeiro momento.

Você me mostrou que são muitas as consequências de se enxergar, em um mundo de cegos. Quando se vê o mundo – para além da visão ocular, superficial e enganosa, a primeira coisa que se quer é manter a dignidade! E o que faz o Governo diante desse desafio humano? Ajoelha-se perante a luz artificial do mundo das coisas, controlado pelo mercado e nos guiando ao consumo! Então, decidimos que assim não pode ser! Escolhemos lutar! Mas como lutar se a própria luta pode se tornar uma forma de cegueira? Não é raro que se atinja quem não merecia e se fira quem já convalesce. Na maioria das vezes, inclusive, convalesce de si mesmo. Então somos interpelados pela nossa própria consciência: Seria tão grandioso, assim, ferir quem não pode se defender nem de si mesmo, ou isso nos tornaria covardes? Estamos a lutar por que(m) mesmo? Em nome do(e) que(m) mesmo? Se for apenas por orgulho, então que se abaixem as armas. Ver em um mundo de cegos causa medo, porque todos tornam-se alvo. De lá ou de cá. De cima ou de baixo. De um lado ou de outro. A questão melhor formulada sobre a “luta” e “as armas” seria, portanto, algo do tipo: de que adiantam armas – simbólicas ou materiais – em um mundo em que a própria Justiça está cega e a lei não é igual para todos?

Então você nos faz questionar algo mais: de que serve a ideia que temos de liberdade se não podemos verdadeiramente enxergar? Se estamos a andar por todos os cantos sem sair de nós mesmos. Vemos o dia e a noite, certamente, mas os vivenciamos? Experimentamos a chuva e o sol ou, na maioria das vezes, reclamamos de suas presenças? Por que culpamos o tempo das nossas angústias e dos planos que fazemos sem consultá-lo? Você tem razão, saudoso Saramago, desenvolvemos uma eterna insatisfação com tudo que não podemos controlar. E o tempo nos mostra isso todos os dias. Ele se encarrega de resolver tudo, mas a solução nem sempre será a esperada por nós. Estamos sempre querendo saber como está o mundo, mas não nos indignamos a olhá-lo de frente. Quantos infectados? Quantas mortes? Qual o tamanho do nosso medo?

Esquivamo-nos, aqui e ali, para que não vejamos a nós mesmos refletidos na forma como olhamos o mundo, já que este último é um espelho das nossas ações ou omissões. Mas você também nos dá esperança. Nos ensina que mesmo que a morte ande pelas ruas, a vida ainda não acabou em muitos lugares, como nas “janelas”, nos “quintais” e nas “varandas”. Não acabou no olhar e no sorriso, sincero, de uma criança, que espera pelo momento de sair novamente para rua e brincar. Ela espera porque sabe que não há outro remédio, mas cria planos para quando voltar a ver o mundo com a possibilidade de lhe espelhar novos desejos a partir de novas ações.

Você nos ensina que não se trata de crermos em “ressureição”. O que importa, de verdade, é o RESSURGIMENTO. Hoje, a maçaneta das portas de casas e apartamentos causa horror. É preciso descontaminá-la para ter coragem de tocá-la, para, enfim, “abrirmos as portas”. Mas, amanhã, o que será? O que poderá RESSURGIR? Seria um novo olhar para a maçaneta, como uma mão estendida, tal qual sugeres? Você me convenceu! Precisamos de uma sólida esperança. Uma esperança em nós mesmos e nos que vivem nesse mundo conosco. Mas isso só é possível quando aceitamos que não mandamos em nada. Nenhum de nós manda! Nem os governos! Nem o dinheiro! Nem as armas! Nada disso! QUEM MANDA É O TEMPO! É ele que dá as cartas desse jogo. Somos, sim, “cegos que vendo não veem”, mas se reconhecermos que mesmo “vendo não vemos”, podemos começar a nos acostumar com a luz! De início vai nos doer os olhos, mas é necessário persistir na luz, com todas as consequências que dessa dor advém. Se não pudermos fazer isso por nós mesmos, que tenhamos a dignidade de fazê-lo por quem amamos.

Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário (escrito em 30 de março de 2020)

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