Deixa eu te falar um pouco da minha experiência com Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Comecei lendo essa obra na versão pocket, da L&PM, que, por sinal, é muito boa. De tanto me envolver com a história, resolvi ir atrás de uma edição maior, de capa dura, que facilitasse o manuseio e ficasse sempre à disposição para novas consultas e releituras. Eu levei mais de dois meses para concluir a leitura das duas partes do livro, que foi finalizada em outubro de 2020, já na edição da Martin Claret. Em breve pretendo fazer um vídeo sobre a minha experiência de leitura com essa obra, mas quero reproduzir, aqui, uma avaliação que fiz, à época, nas minhas redes pessoais, sobre uma decepção que tive, ao final do livro, com esta última editora.
No todo, a edição da Martin Claret é muito boa. Texto disponibilizado na íntegra, com apoio, e ilustrações belíssimas, mas a minha crítica fica por conta de um dos textos do apêndice, que foi escrito pelo ex-ministro do governo Bolsonaro, Ricardo Vélez Rodriguez. Trata-se de uma nota triste e descolada da obra, uma vez que fica evidente a enorme forçada de barra que ele deu para desvirtuar a “perspectiva libertária”, que move Dom Quixote – muito mais próxima do que, hoje, poderíamos compreender por anarquismo (socialismo libertário), de uma simplista associação da liberdade enquanto mera defesa da propriedade privada.
Sim, as obras devem ser analisadas no contexto em que foram escritas, e, de fato, o liberalismo clássico, no século XVII, época em que Cervantes escreveu esta obra, representava um enorme avanço em relação às monarquias absolutistas, mas a figura de Dom Quixote está longe de se resumir à um mero “defensor dos princípios clássicos do liberalismo econômico”. É sofrível essa análise!
A ideia de liberdade, na “ética da honra”, que move Dom Quixote, está fortemente marcada por uma busca incessante por IGUALDADE e JUSTIÇA SOCIAL. Qualquer um que leu – ou que venha a ler – o texto, na íntegra, vai perceber isso; e, mais, irá se emocionar com a principal lição que, no meu entender, podemos – e devemos – tirar dessa obra: liberdade econômica, sem justiça social, não é liberdade, em sua essência. E, por óbvio, o inverso também é verdadeiro; não é possível se falar em “justiça social” sem “liberdade econômica”, pois, esta última, só pode realmente existir, numa perspectiva humanista, se estiver pautada pelo princípio da igualdade!
Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário
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