Resenha de Olhos D’água, de Conceição Evaristo (sem spoiler)

Diariamente a população brasileira assiste, estarrecida, o extermínio da população negra e periférica do nosso país. Esse é um assunto que diz respeito a todos e não pode deixar de ser amplificado, sobretudo em sala de aula, onde pode se formar uma consciência crítica das atuais e futuras gerações.

O livro Olhos D’água da escritora mineira, Conceição Evaristo, é uma provocação necessária para enxergamos essa realidade, sobretudo no que diz respeito às mulheres negras que precisam, dia após dia, enfrentar não só o racismo, mas, também, a estrutura machista que, ainda hoje, determina as relações de poder da nossa sociedade.

A escritora mineira escreve sobre todos esses temas de forma direta – sem deixar de ser poética -, desafiando padrões, “compondo palavras” e nos fazendo sentir quase que uma presença física de personagens que precisam, mais do que nunca, fazer o que já nos dizia Clara Nunes no Canto das Três Raças: “entoar um canto de revolta pelos ares”.

A necessidade de sermos antirracistas

Clara dizia, também, que o seu canto é “o que tinha para dar”. Eu digo que estas linhas, com resenhas como essa – e os vídeos -, é um pouco daquilo que tenho para dar. Todos temos algo para dar. Todos podemos – e devemos – fazer mais do que apenas “não ser racistas”. O Brasil de hoje nos exige uma postura antirracista! Lembro que, na minha juventude, quando começava a arranhar os primeiros acordes no violão, me deparei com uma declaração que serviu de alerta para o mundo em que vivemos. O disco chegou em minhas mãos alguns anos depois de ser lançado, mas, para mim, não deixou de ser uma lição que carrego até hoje.

E as palavras que me marcaram, na adolescência, vieram do líder de uma das bandas que eu estava aprendendo a admirar. Logo no encarte de In Utero (último disco do Nirvana) o recado era o seguinte: “If any of you hate homosexuals, people of different color, or women, please do this one favor for us – leave us alone! Don’t come to our shows and don’t buy our records”. Em tradução livre: “Se algum de vocês odeia homossexuais, pessoas de diferentes cores ou mulheres, por favor, faça um favor para nós: afaste-se! Não venha aos nossos shows e não compre os nossos discos“.

Clara Nunes e Kurt Cobain foram as trilhas sonoras que se misturaram às vozes das protagonistas de Olhos D’água, enquanto eu “lia-ouvia-sentia” o que transmite Conceição Evaristo com esta obra. Mulher negra, nascida em uma favela da zona sul de Belo Horizonte, ela conciliou o trabalho de empregada doméstica com os estudos e, hoje, é uma das mais respeitadas intelectuais em atividade, no Brasil, tendo no currículo um doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense.

Vozes que entoam e vozes que ecoam

Em Olhos D’Água, conhecemos várias histórias de vida que, na realidade, são uma mesma história. Os dramas pessoais aproximam todos: meninas e meninos, homens e mulheres, negras e negros, que, majoritariamente, ocupam as regiões periféricas do nosso país ou encontram-se em situação de rua.

Com a leitura deste livro, aprendi sobre a importância do olhar da mãe, negra, que ensina pela “cor dos seus olhos”, deixando uma herança de esperança para as suas filhas, netas e assim por diante. O reflexo do mundo como ele é está nos olhos dessas mulheres, mães, negras e periféricas. Também compreendi, com Ana Davenga, que, para a população negra desse país, até mesmo o prazer pode vir sempre acompanhado da dor. Entendi um pouco mais sobre o maior dos privilégios: ter direito à escolha; em um país em que milhares de meninas negras são “escolhidas”, desde muito cedo, sem nem mesmo terem o direito de desenvolver o poder de decisão. Suas vidas resultam da “escolha” de outros (geralmente homens).

Conceição Evaristo também desconstrói a romantização da maternidade. Abre os nossos olhos para as diversas situações com as quais as mulheres negras se defrontam diante da realidade de ser mãe; muitas delas ainda muito jovens, sem condições de cuidarem sequer de si mesmas e tendo de assumir essa responsabilidade sozinhas. Na obra, também são discutidos os relacionamentos tóxicos; a violência contra a mulher, que não é somente física, mas, também, psicológica.

Por fim, fiquei encantado com a capacidade da autora em “combinar as palavras”, dando-lhes significados que, sozinhas, não teriam tanta força de expressão. O “quarto-marquise”, onde vivia – e sofria – “Di lixão”; o “peito-coração-menino” e, também, a “flor-sorriso”, são alguns exemplos. Quando Zaita esquece de guardar os brinquedos, somos transportados para o terror do Estado militarizado, no qual as “balas perdidas” não se cansam de encontrar os corpos negros. Ao apagar das luzes, Lumbiá também nos deixa um recado. São muitos os recados, na verdade. Não vou poder falar de todos aqui. O importante é que “o combinado é não morrer”, mas, enquanto objetos tiverem mais valor do que vidas e esse direito fundamental – e constitucional – continuar sendo negado à população negra desse país, continuaremos falhando enquanto seres humanos. O preconceito racial é um problema de todos nós; Claras, Kurts, Conceições, Eduardos… você!

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Confere a resenha do livro em vídeo:

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