Eu li A Peste, ainda em 2020, quando estávamos tentando compreender o que, de fato, seria a Pandemia do coronavírus. Publicado em 1947, pelo escritor franco-argelino Albert Camus, o livro, na verdade, é uma metáfora para denunciar um acontecimento histórico que ficou conhecido como A Batalha da França, ocorrida em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, tropas nazistas invadiram a região da Argélia, que pertencia à França. Em função disso, a invasão nazista é retratada, de forma alegórica, no livro, pela infestação de ratos na cidade de Orã – local onde se passa a história da epidemia narrada por Camus.
Em um contexto em que, inicialmente, muitos ratos começam a aparecer mortos, não demora a surgir, também, a primeira vítima de uma doença que não se tinha conhecimento e que se espalha, rapidamente, vitimando a população local. Aqui, entra um aspecto que me marcou bastante, uma vez que o primeiro personagem a morrer desta doença, no livro, foi um porteiro, tal qual ocorreu, no Brasil, em 2020, quando tivemos o registro de que a primeira vítima de Covid-19 foi, justamente, um homem, que trabalhava como porteiro em São Paulo.

Embora o contexto do livro seja o de uma epidemia e, desde março de 2020, em todo o mundo, estejamos vivenciando uma Pandemia, muitas questões se assemelham e ajudam a refletir sobre o momento atual. Com a leitura desta obra, certamente é possível estabelecer relações sobre as decisões de ordem governamental, sobretudo no que diz respeito a orientações de saúde pública. Mas não é só isso. Um dos fatores primordiais diz respeito ao isolamento social, provocando reflexões sobre como lidar com a saudade em suas mais variadas formas; seja no convívio com outras pessoas ou em simples hábitos que são bruscamente interrompidos.
O personagem principal é o médico Bernard Rieux. Logo no início do livro ele se despede de sua esposa, que estava indo viajar para fazer um tratamento em outra cidade. Essa separação dá o primeiro indício de como a saudade se fará presente em todo o desenrolar dos fatos. O médico é quem atenta para uma sequência de acontecimentos estranhos que estava tendo início, em Orã, quando começam a aparecer muitos ratos mortos pelas ruas da cidade e, em pouco tempo, pessoas são acometidas de uma doença desconhecida, também perdendo suas vidas de forma muito rápida.
Em meio a esse contexto, a primeira reflexão que surge é sobre a forma como lidamos com as nossas vidas; quais os nossos anseios e as nossas angústias. Critica-se, pesadamente, a busca desenfreada pelo consumo, em meio a uma rotina muito agitada e pouco reflexiva. O autor caracteriza muito bem esse cenário, descrevendo uma série de atitudes individualistas, onde cada um estava preocupado apenas com a sua própria vida.
Para conseguir provocar as discussões que julga pertinentes, a partir daí, Camus utiliza alguns personagens marcantes. Um deles é o jornalista Raymond Rambert, que tinha se deslocado de Paris à Orã para entrevistar o dr. Rieux sobre assuntos relacionados à área médica, mas que, ao se defrontar com uma pauta muito mais urgente, é incapaz, pelo menos de início, de se dar por conta de que, ali, estaria a sua grande matéria.
Focado no retorno da viagem, já que havia deixado a pessoa amada em Paris, ele se vê em meio a um conflito pessoal. Durante a sua estada em Orã, as fronteiras são fechadas e o jornalista já não pode mais deixar a região. Entra em cena, neste momento, um outro personagem, Cottard (um contrabandista), que oferece a oportunidade para que Rambert deixe Orã, mesmo que de forma ilegal.
A figura de Cottard representa, assim, o sujeito que, em meio a uma crise sanitária, só pensa em como pode lucrar e tirar proveito da situação. Ele é apresentado à Rieux por Joseph Grand – um funcionário público que vai aparecer muito, na obra, para informar a situação epidêmica, trazendo dados de infectados e de mortos.
Com o agravamento da crise sanitária e o surgimento de novos dilemas filosóficos, surge outro jornalista, na história, que é apresentado como Jean Tarrou. Ao se aproximar de Rieux, engajando-se de forma voluntária nas guardas sanitárias, são travados diversos diálogos importantes, que nos levam a pensar como as relações familiares são determinantes no olhar que lançamos para o mundo. O pai de Tarrou era um juiz responsável por determinar a execução de criminosos, deixando o peso do seu trabalho influenciar na reflexão de seu filho sobre o que seria, de fato, a “justiça dos homens”. Afinal, quem – e a partir de quais critérios – teria o direito de decidir sobre aqueles que devem viver ou morrer?
Fechando a obra, essa reflexão é levada para o âmbito da religiosidade. Para isso, o autor apresenta outro personagem. Trata-se do padre Paneloux, que vai entrar em conflito com Rieux sobre o entendimento da epidemia, defendendo o sofrimento e a morte como algo inevitável; isto é, uma determinação divina. Essa visão é duramente contestada pelo médico, estabelecendo, talvez, o ponto alto do livro, que emerge do embate entre a ciência e a religião.
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Resenha resumida para o programa Futebol & Cultura da RádioCom:
Vale muito a leitura!