Um pedaço de madeira e aço, de Christophe Chabouté (sem spoiler)

Se engana quem pensa que um banco de praça é só “um pedaço de madeira e aço”. É território. É morada. É abrigo. É palco. É local de leitura, de encontro, de solidão, de convívio, de sociabilidade. É público! Mas, muitas vezes, tem seu acesso “privado” a quem mais necessita.

E não é só isso. Seu dia a dia não é fácil. É riscado, rasgado, descascado e tatuado à faca. É lixado, pintado, cagado, mijado e lavado pela água da chuva. É coberto de folhas, de brasa, de suor e de lágrimas. E, por tudo isso, é, também, testemunha. É memória. É inspiração. É vida que não cabe em casa e ganha as ruas; vida que ganha as praças.

Essa HQ é uma obra prima. Não têm diálogos e ao mesmo tempo é uma retumbante polifonia da existência humana. Um banco de praça pode ser tudo, mas, nesse contexto de privatização da vida, onde espaços públicos e privados passam a se confundir e diferentes interesses rivalizam, qual a utilidade que vemos nesse “pedaço de madeira e aço”?

Essa é a maior expressão de humanização do cotidiano, em um quadrinho, que eu já li. Um banco de praça nunca é “só um banco de praça”. É a expressão de todas as vidas e energias que construíram a sua essência. Mesmo sem balões e diálogos, só por meio das expressões dos personagens e da passagem do tempo, percebemos o quanto as pessoas e os lugares se influenciam mutuamente e eternamente.

Quando li esse livro, em novembro de 2020, cheguei a comentar nas minhas redes sociais que deu uma vontade de fotografar, por um dia, um único banco em uma das praças de Pelotas, durante essa Pandemia distópica. Quem sabe ainda não faço isso… Seria uma tentativa de devolver um pouco da sensibilidade que inspira ler esse livro. Quando quiserem se emocionar e ter uma experiência de leitura completamente diferente de tudo que já tiveram, simplesmente leiam.

Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário

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