Por Eduardo Menezes – Sujeito Literário
Existir é se permitir estar em relação com o outro. Acontece que esse “outro” não precisa, necessariamente, ser compreendido como “um semelhante”, porque pode, também, ser visto como o universo simbólico que faz parte do que cada um de nós somos, em essência. Ficou confuso? Deixa, então, eu simplificar essa ideia. O psicanalista francês, Jacques Lacan, trabalhava com uma ideia muito interessante sobre como nos constituímos enquanto sujeitos. Esta perspectiva, no âmbito da Linguística, está associada aos estudos de Michel Pêcheux, que desenvolveu todo um arcabouço teórico conhecido, hoje, como Análise de Discurso de Linha Francesa (AD). Existem diferentes escolas de AD, mas eu chamo a tua atenção para esta fundamentação teórica porque me parece apropriada ao nos deixarmos levar pela obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Acredito que as linhas que se seguem podem ajudar a compreender o que, na minha visão, essa obra tem de fundamental: incentivar o exercício de alteridade. Para quem não está acostumado com esse conceito, ao falarmos de “alteridade” estamos nos referindo à capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
Lembra do que eu disse logo acima sobre a noção de “o outro” (um semelhante) na perspectiva de Lacan? Pois é, para ele todos nós somos constituídos, enquanto sujeitos, na relação com “dois outros”, digamos assim. O outro (semelhante), escrito com “o” minúsculo, irá remeter ao nosso alter ego (um segundo “eu”). Já o Outro, grafado com “O” maiúsculo, indica o mundo simbólico que também faz parte do nosso desenvolvimento enquanto sujeitos, sobretudo literários. Quem quiser aprofundar essa discussão pode procurar o livro de Juan-David Nasio, Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan, publicado pela Jorge Zahar, em 1993, mas vamos, agora, tratar do que tudo isso tem a ver com o livro de Clarice Lispector.
Partimos, aqui, do entendimento de que a leitura é um processo discursivo, tal qual preconizado pela AD. Sendo assim, o sentido produzido com o que lemos se constrói na medida da relação entre os interlocutores desse processo. Isso pode ser pensado tanto na nossa relação, enquanto leitor, com os personagens, quanto na relação da autora com a criação deles e, ainda, na nossa relação com a própria perspectiva da autora.
A Hora da Estrela possui dois personagens principais. Um deles é Rodrigo SM, pseudônimo utilizado por Clarice para fazer uma crítica contundente ao machismo, predominante no mercado editorial, ao analisar quais obras seriam “dignas” de serem avaliadas, antes mesmo de entrarem no mérito do conteúdo. A autora usa de muita ironia para mostrar a linguagem pedante dos escritores, homens, da época – lembrando que este livro foi escrito em 1977, meses antes dela falecer.
O escritor “Rodrigo SM”, portanto, uma espécie de “alter ego”, encarnado por Lispector, é quem vai trazer uma das narrativas que corre, de forma paralela, para traçar o perfil e a vida da nordestina Macabéa. Alagoana, de 19 anos, esta mulher é avistada por ele, em meio à multidão. A constituição física, o olhar, o modo como ela se comporta – quase invisível -, em meio aos demais, chama a atenção do “intelectual das letras”. Ele, homem, vaidoso, decide escrever sobre a figura miserável que o impele a colocar-se, de alguma forma, “em seu lugar”. Macabéa irá funcionar como um alter ego para Rodrigo SM, que, por sua, vez, como dissemos, é o próprio alter ego criado por Clarice Lispector ao narrar a história.
Isso, minha gente, é pura magia literária! É a literatura em sua forma mais envolvente. Sabe por quê? Porque não é fácil para ninguém se colocar no lugar dos outros. E Clarice demonstra isso de forma poética. A narrativa que corre paralela à visão de Rodrigo SM sobre Macabéa é a da própria Macabéa, tão bem desenvolvida pela autora, que, ao trazer essa visão sobre a miséria da condição humana, mesmo que se refira à nordestina, na terceira pessoa do singular, por meio do alter ego de Rodrigo SM, não deixa de estar ela mesma, Clarice Lispector, um pouco no lugar de Macabéa e outro pouco no lugar de Rodrigo SM.
O “narrador”, Rodrigo SM, sente amor e ódio por Macabéa. Clarice sente desprezo e compaixão por Rodrigo SM. Nós, enquanto leitores, sentimos amor, ódio, desprezo, compaixão, piedade, culpa – e tantos outros sentimentos – pela condição de todos / pela condição humana, inclusive em relação a nós mesmos. Nosso olhar sobre qualquer história de vida – ficcional, ou não – espelha o universo simbólico que fomos capazes de construir desde a mais tenra infância (nas relações familiares, na escola, no trabalho etc). Com esse livro, além da consciência de si, Clarice propõe a necessidade da consciência de classe. A urgência de “sairmos de nós mesmos” para que possamos enxergar os outros (nossos semelhantes / nossos alter egos). Porque a única condição para nos reivindicarmos existencialmente é não deixarmos de sentir a dor do outro como se fosse a nossa própria dor.
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Confere o vídeo com a resenha do livro produzido em parceria com o Canal Conta Comigo: